quinta-feira, 24 de abril de 2008

CONVERSA DE BAR - conto


Era um pequeno bar-restaurante onde sempre se encontravam. Eram da casa. Sérgio, Mário e Gérson. Três amigos da adolescência. Adolescência que já fora ultrapassada há duas décadas. Conversavam muito, sempre com brincadeiras na ponta da língua, sempre sorrindo, sempre contentes. Até o dia em que Ela se sentou junto à eles, ocupando a quarta cadeira, sempre desocupada.

Um sentimento de mal-estar geral tomou conta de todos à mesa, com exceção da jovial e bela garota. Os sorrisos fecharam-se e as brincadeiras cessaram. Ela não era bem vinda entre eles. Mário tentou distrair os outros e a si mesmo daquela presença perturbadora, mas ela continuou ali, persistente como a própria Insistência, sua prima.

Quando todos notaram que ela não sairia fácil do local, renderam-se às suas estranhas perguntas. Ela perguntou se eles gostavam de suas vidas, se elas eram boas ou ruins, se eram justas ou injustas.

Não havia queixas contra a Vida, responderam eles. Sérgio era feliz. Homossexual não assumido, escondia de Gérson e Mário sua preferência por homens para não arriscar perder amigos de tão longa data. Mário era feliz. Com estranhas manchas pelo corpo todo, exceto as extremidades, tinha vergonha e medo dessa doença que nem seu médico sabia dizer o que era. Gérson também era feliz. Paralítico da cintura para baixo há vinte e três anos, via freqüentemente sua esposa sair para visitar seus amantes.

Ela não acreditou. Disse que assim fosse, ela não estaria sentada entre eles. Desgosto mostrara o local à Ela. Lhe indicara até mesmo a mesa. Os amigos reagiram. Desgosto estava enganado. Afirmaram e reafirmaram sua felicidade. Gérson até arriscou um palpite: “Não teria sido Humor a pregar-lhe uma peça?”

O palpite foi considerado, embora com certa suspeita. “Talvez não tenha sido Desgosto, como você disse”, sussurrou. Um sussurro vindo de muitos milhares de séculos atrás.

Ela levantou-se e caminhou lentamente até a saída. Os olhares dos três a acompanharam até que Ela sumisse de suas vistas. Prestaram atenção para ver se não escutariam o som de suas asas, mas nada escutaram. “Ela é silenciosa”, observou Gérson. Os demais assentiram com a cabeça.

Depois do ocorrido nunca mais se viram.

Janeiro, 1992

4 comentários:

Natiih disse...

Ah,me desculpe,eu não tinha visto os seus comentários dos meus post's anteriores..
Primeiro,muito obrigada por ser sincero sobre aquela minha história(nao sei se lembra qual eh,a da Lucinha).E tambem,eu gosto sim de Fresno,bastante! *-*
E outra coisa,muito obrigada por comentar no meu blog,são sempre comentários muito produtivos e me ajudam muito com o andamento do blog.
Quanto ao seu texto,gostei!Bem legal.
E mais uma coisa: A sua coluna da Capricho edição 1043(alinne na capa) ficou muito legaal viu?! :P

Abraço.

Marina disse...

Ótimo conto! Não sei se daria conta de fazer um no universo de Sandman. Acho grande demais para mim.
Parabéns!

Kitty disse...

nossa...tô até agora refletindo sobre o conto, muito bom! Nem me arrisco a comentar pra não começar com as minhas 'filosofadas' e acabar com os caracteres (e com a tua paciência! haha)

e eu já pensei sim em trabalhar em gravadoras, algo do gênero..que depois me vá ser útil quando eu tiver uma banda e tal..tanto é que já tenho em mente o curso que eu vou fazer inicialmente, só pra já pegar uma noçãozinha (depois vou fazer muitos outros, claro. Perfeccionista como eu sou, se eu quero fazer algo, tenho q fazer perfeitamente, dominando cada detalhe.)...dei uma pesquisada e descobri que abriram um curso de Produção Fonográfica, pela UCPel..simpatizei bastante com o conteúdo, a metodologia..minha mãe é que não ficou muito contente com essa escolha..pra ela, fazer música é sinônimo de acabar morrendo de fome. E pensando bem, realmente tem um quê de razão...tem taaantos músicos no mercado (poucos realmente bons, mas whatever..), que é meio difícil ser 'descoberto' e começar a tocar por algo mais que uns poucos trocados. Mas eu não tô querendo seguir esse caminho pelo dinheiro. Se fosse por isso, fazia administração, medicina, direito...eu quero só por arte pela arte..porque é uma coisa que me agrada e que me faz bem.
Quanto à curiosidade: toco alguma coisa de violão (a maioria eu aprendi sozinha..nunca me dei bem com os professores que meus pais arranjavam..só tavam ali pra ganhar o seu, e nem aí pro meu progresso.), tô aprendendo alguma coisa de teclado vendo uns vídeos, umas aulas on-line...e ano que vem pretendo entrar pra aula de canto e piano. Até canto bem, mas tenho uma coisa que, segundo um dos meus ex-professores, chama-se extensão (ou distenção? não lembro direito) vocal..minha voz dá uma oscilada, do grave pro agudo ou vice-versa em alguns pontos..me disseram que isso até é bom, pq amplia um pouco as possibilidades, mas tenho que aprender a controlar e me manter estável..pra isso quero me especializar...não continuar só com o que eu sei de ouvido.
beijão!

Bianca Sousa disse...

O importante mesmo eh ser feliz. E melhor ainda, e mais dificil ainda, aceitar-se.

Ps: mal a falta de acentos. Teclado.de cel..