sábado, 15 de maio de 2010

YANTO LAITANO - Entrevista


Conheci o Yanto em 1999, quando estava procurando um compositor para criar a trilha sonora do meu primeiro curta, A VINGANÇA DE KALI GARA. Nos demos bem imediatamente, pois eu não estava apenas procurando um músico que preenchesse determinados momentos no filme, mas como apreciador de trilhas sonoras desde os 13 anos, eu procurava alguém que me construísse uma alma e uma identidade para o filme e que fosse um apaixonado por trilhas como eu. E o Yanto era tudo isso e muito mais. Bom, o filme ganhou diversos prêmios, inclusive o mais do que merecido troféu de Melhor Trilha Sonora. Depois disso, realizamos mais duas felizes parcerias de curtas, onde Yanto também abocanhou mais um prêmio. Mas o Yanto não faz apenas trilhas de filmes, pois como todo artista nacional lutando por seu lugar ao sol, ele tem vários outros interesses e atividades, mas todas relacionadas à música, sua grande paixão.

Com vocês, Yanto Laitano:



Qual é a tua formação?

Eu sou graduado em música na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) onde também fiz meu Mestrado em Música. Também estudei por um tempo em Paris no IRCAM, uma instituição dedicada à pesquisa e à criação de música erudita contemporânea em Paris, e também na Hungria. Mas aprendi muito tocando por aí, tirando música de ouvido e tocando com outros músicos.

E quanto rolou isso de querer ser músico e cantor? Teve algum conflito com a família por causa de sua escolha?

Nenhum conflito ! Quando minha mãe viu eu usando um sofá como se fosse um piano e fazendo experiências com um toca discos ela me levou para fazer aulas de piano. Eu devia ter uns 8 anos e morava numa cidadezinha de 3 mil habitantes no oeste de Santa Catarina chamada Jaborá, as aulas eram na cidade vizinha Joaçaba. Logo comecei compor e tocar minhas músicas nas apresentações da turma de piano. Elas sempre eram muito aplaudidas, heheh. Um pouco mais tarde eu acabei montando uma banda na minha cidadezinha. Eu enchi tanto o saco de uns amigos que eles começaram a estudar música e a tocar comigo. Então o pessoal de Joaçaba, a cidade vizinha que era maior (tinha até sinal de trânsito!) ficava tirando onda com a gente, dizendo que éramos colonos. Um belo dia rolou um Jornal do Almoço ao vivo em Joaçaba. Como Joaçaba não tinha nenhuma banda de rock, quem tocou fomos nós, os colonos ! Os caras ficaram furiosos pois os caras de Jaborá foram lá e quebraram tudo ! Ai passaram a nos respeitar, passamos de colonos a descolados. =)

Quando chegou perto do vestibular e meu pai viu que não adiantava insistir pra eu fazer medicina, ele disse que se eu quissesse ser músico eu deveria fazer faculdade de música. Então eu vim para Porto Alegre, cidade natal do meu pai, pra fazer isso.



Você compõe música erudita contemporânea, música experimental, trilha sonora para filmes e pop rock. Existe algum desses estilos musicais que você gostaria de trabalhar mais?

Gosto muito de compor trilhas pra filmes! É um lance muito inspirador ver as cenas sem música, entender o que o diretor quer passar com aquilo e então criar a música para a cena. É um processo muitíssimo mais rápido do que partir do zero. Não há nada mais pertubador do que uma página em branco pois dá pra ir para qualquer lado e o que perturba é ter que escolher um dos caminhos e deixar os outros. Então é muito interessante e tranquilo quando há uma direção determinada por algo como um roteiro ou cena de um filme.

Ultimamente eu não tenho gostado de métodos cerebrais de composição do tipo que eu costumo usar pra criar música erudita. Tenho gostado muito de compor canções e tocar rock porque é algo muito intuitivo e que possibilita trazer para fora, para o mundo, o que está lá dentro. Então a folha em branco deixa de ser assustadora pois ela pode ser preenchida com aquilo que está lá dentro. E aí essas coisas não ficam lá dentro te perturbando... então é um processo de composição natural, muito verdadeiro e saudável. E penso que esse tipo de música composta dessa maneira bate no ouvinte de uma maneira especial. Nada se compara a fazer um show e ouvir as pessoas cantando tua música !!

Como é construir uma carreira nessa área?

É algo que tem que se gostar muito porque é um processo lento. Aprender a tocar bem um instrumento leva tempo, conhecer música leva tempo, compor coisas legais leva tempo, montar uma banda, fazer o primeiro show, colocar uma música numa rádio, tudo isso leva tempo. Então se não amar profundamente fazer todo esse processo você vai desistir nas primeiras dificuldades. O fato de nossa indústria musical ter uma estrutura muito fraca e incompleta deixa tudo mais difícil. Isso faz com que um músico, além de fazer música, tenha que ser seu próprio empresário e produtor. Mesmo com as ferramentas disponíveis atualmente isso continua assim. Então eu acho que o melhor é saber um pouco de tudo.

Posso dizer como funciona comigo: a maneira como as coisas rolaram na minha vida me possibilita atuar em diversas frentes. Então eu componho trilhas para filmes, documentários, espetáculos de dança, teatro e circo, faço shows, faço direção musical de discos e espetáculos, dou aulas, escrevo projetos de lei de incentivo, recebo direitos autorais... mas é um pouquinho de grana de cada uma dessas coisas. Hoje eu vejo que essa diversidade é fundamental pra minha sobrevivência artística e financeira. Se eu ficasse somente fazendo uma dessas coisas, talvez recebesse só aquele pouquinho reverente aquela coisa o que seria ruim ! Mas como são vários pouquinhos, eles vão sendo somados e acaba dando certo.



PEÇA PARA CÃES FAMINTOS
Experimentalismo, criatividade e cara-de-pau sem limites!



Fale um pouco de seus projetos anteriores, do Ex-Machina, da Bili Rubina.

Eu estive muito tempo envolvido com arte contemporânea. Desde que eu entrei na faculdade de música, e depois no mestrado ou quando estudei na Europa, eu me afastei da música pop e me dediquei à música experimental, não-comercial. Não só trabalhei compondo esse tipo de música mas também trabalhei pra fazer com que essa música acontecesse. Participei da criação de um grupo de compositores de música experimental, chamado Ex-Machina, escrevi muitos projetos para gravação de discos, organizei turnes e festivais onde só se tocava música experimental.

Produzi diversos CDs do estilo, inclusive dos meus professores do mestrado em música. Aquilo tudo foi muito bom ! Mas chegou um momento em que não me bastava. Eu queria tocar um tipo de música que tivesse mais comunicação com o público, uma música que pudesse passar mensagens com as quais as pessoas pudessem se identificar. Então eu voltei para a música pop. Isso foi há uns três ou quatro anos e está sendo muito bom.

Cartaz do show de 10 anos da banda.

Ganhar prêmios te ajudaram na carreira? Como?

Sim, ajudam! Mesmo que o prêmio não venha acompanhado de grana, através dele sempre surgem convites pra outros trabalhos. E as pessoas, mesmo aquelas que não sabe exatamente o que o artista faz, passam a ter mais respeito por ele.

E como vai sua carreira solo, sei que tem um CD novo no forno...

O CD acabou de chegar da fábrica!! Chama-se "Horizontes e Precipícios" e tem doze canções, quatro delas já podem ser ouvidas na minha página no myspace . Resolvi fazer um CD onde o instrumento principal é o piano acompanhado por baixo e bateria.

Também fiz arranjos usando trompete, trompa, sax, cordas, clarinete mas deixei de fora as guitarras. Fiz isso propositalmente porque apesar de gostar muito do timbre de guitarra e ser fã de Harrison, Hendrix, Clapton, Zappa e tantos outros, eu penso que nesses tempos onde parece que tudo já foi feito e que paira uma mesmisse no ar, é legal abrir caminhos alternativos, buscar outras direções. Então fiz um CD de rock sem o instrumento mais característico do estilo: a guitarra. É um CD de rock sem guitarras.

Além disso, as canções possuem muitas referências, algumas bem a vista e outras escondidas, de Mário Quintana a Mutantes passando por Caetano Veloso, Charly Garcia, Ben Folds Five, Tolkien e o Sargent Peppers dos Beatles. Fiquei muito feliz com o resultado... gravei tudo como eu queria e não deixei passar nada que eu não estivesse satisfeito.

Então eu achei que ficou ducaralho! Iremos começar a vender o CD nos show como pré-lançamento. Quando rolar o lançamento oficial vamos avisar todo mundo !

Show de 25 anos da rádio Ipanema FM.

Já que esse blog é lido por muita gente jovem, que conselho você daria pra quem está pensando se vale a pena ser músico?

Se você pensa em ser músico pra ficar famoso e milionário é melhor escolher outra profissão. O que eu quero dizer é que você pode muito bem ficar famoso e rico mas esse não pode ser o objetivo! Isso é uma consequência, é algo que acontece com alguém que é um músico excepcionalmente bom ou que tem algo especial pra dizer para o mundo.

A maioria das pessoas entra na música para ganhar algo do mundo mas é o contrário, tem que criar algo de bom pro mundo. E tem que ter muuuita paciência porque as coisas demoram. E como as coisas demoram é bom estar curtindo muito o que se faz.



A EQUILIBRISTA


Escute as músicas de Yanto Laitano no Myspace!

3 comentários:

Alice F. disse...

Nossa, adorei, pegava fácil...

Pirulito que Bate-Bate disse...

Olá, Jerri.
Eu voltei com o meu blog, sou a Bia do Pirulito que Bate-Bate.
Também sou a filha da Ana Lúcia, dona do anaprofana.blogspot.com
Um beijo.

Marcela disse...

Jeeeeeeeerri, estou precisando falar com você.
Eu e algumas meninas, que faziamos parte do Tudo de Blog da CH estamos com uma proposta de fazer uma revista digital, unindo tudo o que a gente sabe e como se fosse vários blogs juntos num site.
Uma das seções da revista vai se chamar No Radar Deles, e a proposta é fazer algo semelhante a aquele meu blog que você já leu o comoperderaquelagarota.blogspot.com
Não sei como você se organiza para fazer as suas crônicas, mas a gente adoraria se você fizesse algo para nós, para que estreiassemos a seção com chave de ouro.

A gente tinha pensado em algo sobre como é escrever para mulheres, como as nossas neuras parecem absurdas para vocês, ou algo sobre a opinião masculina.
Se você puder, se tiver alguma outra idéia por favor entre em contato. E se você não tiver interesse por favor não deixe de me dizer.

um dos vídeos que estamos usando na divulgação do nosso projeto é esse aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=W8AyoNy8_LE
e o link do site vai ser:
http://www.revistanodiva.com.br

Obrigaaada

(mah__bassoli@hotmail.com)