quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

GUFFO - Entrevista

 O diretor, o fã...

Conheci o Gustavo Fogaça, ou Guffo, em 2006, quando fizemos juntos com outros roteiristas e cineastas, uma oficina de roteiros para os curtas aprovados no projeto HISTÓRIAS CURTAS da RBS TV. Nascido em Porto Alegre, tinha tudo para ser bairrista, mas por sorte conseguiu morar boa parte de sua infância e adolescência na Inglaterra, França, Espanha, Chile, Colômbia e Argentina.
Formado em Cinema em Buenos Aires, Guffo trabalha com audiovisual desde sempre, mas apaixonado por música, se dividiu em dois para ter uma carreira em ambas as áreas.
Provavelmente é por isso que seus dois primeiros longas, um documentário e uma ficção, unam justamente as artes que ele mais aprecia.


Comecemos do começo. De onde veio sua paixão pelo cinema?

Cara, desde criança eu pegava a câmera do meu pai e, junto com minha irmã Carmela (que hoje é atriz) e meus primos, faziamos novelas, séries e besteiras. A gente montava na CAM mesmo ou com dois aparelhos de VHS. Ao virar adulto, me dei conta que eu sei contar histórias com imagens, e o cinema virou o caminho natural.


NARANJO (1996), curta realizado na Argentina.


E como foi entrar na área? Sua família apoiou ou rolou aquele papo “primeiro faz Medicina.”?

Hahaha...boa! Todo trampo com cunho artístico rola uma preocupação familiar, porque é uma vida muito inconstante. O mundo lá fora não tá preparado para quem vive de arte...tipo, vai alugar um apartamento sem renda fixa? Ou pegar um empréstimo. Ou qualquer coisa da chamada "vida real"...é muito complicado! E na minha vida, ANTES do cinema veio a música...que é bem mais difícil ainda. Então, apesar dos meus pais de alguma forma ou outra terem me apoiado, eu também tive que brigar muito com eles pra mostrar que era essa a minha vida, as minhas escolhas, e que eu só poderia ser feliz vivendo de arte. Foi complicado, mas aqui chegamos!

Você acha que o fato de ter vivido em vários países te faz querer fazer filmes mais universais e menos bairristas e/ou com uma pegada brasileira? Ou isso simplesmente não existe?

O que MAIS me influencia como artista é o fato de ver que o mundo é pequeno, e que existem milhões de formas de ver a vida, e todas devem ser respeitadas. A experiência de ter vivido em 10 países ao redor do mundo me deu coisas que ninguém vai tirar de mim, que vou sempre carregar como artista e como pessoa. Na hora de trampar, isso conta, claro. Mas também como trabalho com publicidade e conteúdo, muitas vezes vc tem que satisfazer o cliente, e isso significa fazer o que tem que ser feito, entende?





Como quase todo cineasta brasileiro, você também trabalha com comerciais, vídeoclips e o que mais aparecer na área audiovisual. Para você isso se configura uma necessidade, um aprendizado ou uma escolha?

Cara, primeiro de tudo, é uma necessidade. Só vive de cinema no Brasil hoje quem é milionário ou herdeiro. Porque nós não temos uma INDüSTRIA propriamente dita aqui. Fazer cinema no Brasil é verdadeiramente um processo AMADOR porque vc precisa amar MUITO a parada!! hahaha....falando sério, leva anos pra filmar um longa-metragem e coloca-lo nas salas de cinema ou tela de tv. Nesse meio tempo, alguém tem que pagar as contas.
Aí entra a questão da escolha e do aprendizado. Você escolhe trabalhar com o audiovisual e suas outras janelas. E é claro, que com isso se aprende MUITO (e pagamos as contas!!).

Quais os trabalhos, entre filmes, clips e peças publicitárias que mais te deixaram satisfeito como artista, mesmo sabendo que enquanto artista, se é eternamente insatisfeito?

Sem dúvidas, meus dois primeiros longas, "A Casa Elétrica" e "acasaeletrica.doc" me deixaram muito satisfeito. Por ter feito algo de qualidade, com um baixo orçamento e tirando o MELHOR de todos os profissionais envolvidos. E também por contar uma história INÉDITA pras pessoas, de suma importância.
No quesito clipes e afins, o clipe "Cada vez mais só" que fiz para a banda DRIVE foi muito premiado, assim como o DVD Casa da Bossa da Universal Music, com grandes nomes da MPB. Ultimamente, dois trabalhos que fiz que me deram muita satisfação foram a webserie Ñats e o programa TV Bibi, que são cases de Branded Entertainment, um tipo de conteúdo no qual tenho me especializado.





Eu sei que você tem uma predileção pelo gênero Fantástico (Ficção-Científica, Fantasia e Horror). Você tem planos de fazer algo nesta linha? Vê alguma dificuldade em vender o conceito deste tipo de projeto no Brasil, onde cineastas geralmente optam pela alegoria e pelo Realismo Mágico?

Meu velho, eu sou LOUCO por esses gêneros. De verdade, são meus favoritos. Se eu pudesse, vivia APENAS disso, fazendo e respirando isso diariamente. Então, é OBVIO que pretendo fazer coisas nessa área. Meu curta de finalização da faculdade de cinema em Buenos Aires foi nesse gênero. "Un Infierno para Dante" foi meu curta mais premiado, nacional e internacionalmente.

Fale um pouco sobre seu primeiro longa, A CASA ELÉTRICA.

Em 1998 eu conheci o sobrinho neto de Savério Leonetti, Geraldo. Geraldo me contou a história do seu tio-avô, e eu fiquei totalmente fascinado. É a história de um pioneiro italiano que fundou em Porto Alegre a primeira fábrica de gramofones, e a segunda gravadora de discos da América Latina. Na Casa Elétrica foi gravado o PRIMEIRO samba da história, e o primeiro tango também.
Eu fiz então DOIS filmes sobre a parada: um documentário contando a história real, e um de ficção onde fiz um romance com certas permissões poéticas, mas com todos os fatos reais de pano de fundo. O doc estreiamos agora em abril, e o outro estréia no segundo semestre. Imperdível!!




Além de cineasta, você também tem uma carreira voltada para vários gêneros musicais, como Hip-Hop e Electrorock. Como você faz pra conciliar essas duas atividades? Você se divide em dois, como no seu curta ARTES MORTAS?

Como disse antes, a música veio antes que o cinema na minha vida. Tive uma banda em Buenos Aires, a TABÚ, que foi disco de ouro pela Warner Music, tocamos por toda América Latina, etc e tal...eu compus as trilhas de todos os meus curtas, to compondo a do meu longa junto com o Sergio Rojas, enfim...a música SEMPRE esteve presente na minha vida, seja como for.
Agora estou com uma dupla de electrorock, a GINGER BONES, que certamente vai acontecer, porque as músicas são muito bacanas e a vocalista, Paola Salerno Troian, canta MUITO e tem muito estilo. Aguardem!!

E como sonhar não custa nada, se você tivesse um orçamento ilimitado na mão, que filme você faria?

Nossa, a pergunta MAIS dificil EVER! Cara, eu gostaria de filmar uma trilogia de Star Wars, baseada nos quadrinhos LEGACY, que conta a história de Cade Skywalker, neto de Luke e bisneto do Darth Vader. É simplesmente sensacional!!


 
O diretor, o rockeiro...


E como essa entrevista tem que ter algo de inspirador para as futuras gerações, alguma dica pra quem está começando ou pensa em ter uma carreira em audiovisual? Ou é melhor essas pessoas pensarem em fazer Medicina?
 

Tem que se conhecer, saber quem você é e o que você tem que pode entregar pras pessoas. Viver de arte no Brasil, seja ela QUAL for, é muito difícil. Precisa ter coragem, confiança dentro do possível, saber que é necessário estudar muito, sempre se atualizar, seja técnica ou artísticamente.

Vou deixar uma citação de Oscar Wilde, que eu sempre usei em benefício próprio: "Se não pode convencê-los com teu talento, convença-os com tua paixão".

Um comentário:

Alice Abad disse...

Talento e garra! Parabéns Guffo.