sexta-feira, 10 de agosto de 2012

EU MATEI MINHA MÃE - Filme



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Nos filhos, a vontade de ser autônomo, livre e rebelde convive com a de ser
cuidado, amparado
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AOS 17 anos, Xavier Dolan, canadense, escreveu o roteiro de "Eu Matei Minha Mãe". Logo, ele produziu,  dirigiu e protagonizou o filme.
Apesar do sucesso em Cannes em  2009 (três prêmios na Quinzena de  Realizadores) e na Mostra de Internacional de Cinema de São Paulo,  "Eu Matei Minha Mãe" acaba de estrear em poucas salas e capitais.

Adolescentes e pais, apressem-se e  não percam sob nenhum pretexto.  Os pais mais corajosos deveriam assistir ao filme com os filhos, a experiência valerá algumas sessões de  terapia de família e talvez resolverá  conflitos cruentos e incompreensíveis numa saudável hilaridade coletiva.
O filme é prodigioso: não me lembro de ter lido ou visto um relato tão  terno e, ao mesmo tempo, cruel (ou  seja, tão autêntico) da mistura explosiva de amor-paixão e ódio letal  entre um filho e sua mãe.

1) Hubert, o protagonista, filho de  pais separados, vive com a mãe, enquanto o pai é pior que ausente: ele  só aparece na hora de "disciplinar"  o garoto. Mas que ninguém se sirva  disso como pretexto para tirar o corpo fora: se Hubert vivesse com o pai,  sua relação com o genitor seria tão  ambivalente quanto o é
com a mãe.  Mesma coisa se os pais de Hubert  não estivessem separados: a funcionalidade de uma família controla e  esconde, mas não suprime a virulência dos afetos em jogo.

2) Alguns pais e adolescentes se  reconhecerão no filme. Ótimo: eles  se sentirão menos sozinhos. Com  frequência, encontro uma espécie  de vergonha da violência das emoções familiares e da incompreensão  entre pais e filhos; muitos fazem de  conta, encenam uma família leve e  jocosa como uma propaganda de
margarina e sofrem em silêncio,  convencidos de que seu caso é extremo, patológico, se não único. Pois  bem, não é só que as famílias margarina sejam chatas (isso, Tolstói já  dizia), é que elas não existem.

3) Os pais e adolescentes que se  reconhecerão na história de Hubert  não precisam se desesperar. Lembrem-se: o filme é, em grande parte,  autobiográfico, ou seja, aquela relação horrorosa entre mãe e filho não  impediu que vingasse um jovem como Dolan, que tem sensibilidade e  inteligência emocional para vender.
Quanto à mãe de Dolan, aposto que,  agora, com o filho ocupado em fazer  filmes, ela deve estar namorando feliz e comprando casaquinhos, liquidações afora.

4) Alguns dirão: "Nossa família  não tem nada a ver com isso, a gente  se ama e se respeita, tranquilamente". Outros acrescentarão: "Nunca  fui tão desrespeitoso com meus  pais, nem em pensamento". Acredito. Mas repare que, em geral, as paixões parricidas da pré-adolescência  e da adolescência são esquecidas  na idade adulta. O filme de Dolan foi  possível, justamente, porque foi escrito e filmado com Dolan ainda  adolescente, antes da amnésia  adulta.

5) A grande maioria dos adolescentes sente asco do corpo dos pais,  acha nojento os pais comendo, bebendo, dormindo, beijando-se, respirando  etc. Esse desgosto é bem-vindo: serve para encorajar o adolescente a  procurar alhures seus objetos de desejo.

6) Nos pais, a vontade de criar filhos quase sempre convive com a  vontade de continuar "aproveitando a vida" (como se criar filhos não  fosse um jeito extraordinário de  aproveitar a vida). Há pais que deveriam ouvir o que eles mesmos dizem quando um filho lhes pede um  cachorro: "Você quer um bichinho  que
abane o rabo quando você entra  em casa, mas você vai ter que levá-lo  para fazer xixi, educá-lo, dar-lhe comida a cada dia". Uma menina, que  acaba de ganhar um filhote muito  desejado, pergunta-me: "Por que  ele foge se estiver sem coleira? O que  é, ele não gosta de mim?".

7) No filho, a vontade de ser autônomo, livre e rebelde convive com a  de ser cuidado, guiado, amparado.

8) Também no filho, a admiração  pelos pais nunca dispensa a sensação de que a vida deles é inautêntica, feia, fracassada -kitsch como  um abajur de oncinha comparado a  uma pintura de Jackson Pollock.

9) Talvez Hubert não fosse feito  para ser filho; quase ninguém é.

10) Talvez a mãe de Hubert não  fosse feita para ser mãe; quase ninguém é. Ela pode se perguntar,  aliás, se não teria sido melhor não  ter aquele filho. Na saída do cinema,  por um instante, podemos pensar  que sim, certamente, para a vida dela, teria sido melhor.
Mas será que teria sido mesmo?

CONTARDO CALLIGARIS

ccalligari@uol.com.br

Assista o filme completo aqui.





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