terça-feira, 12 de agosto de 2008

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight, 2008) - crítica




Utilizando o título da graphic novel que deu a Batman o status cult-hype-in conquistado a partir dos anos 80, me perguntei se a apropriação era mera estratégia de marketing ou se o filme realmente teria ecos da magnífica obra de Frank Miller.

Deixei para ver o filme uma semana depois da febre para não pegar o cinema lotado, mas não adiantou, na segunda semana as sessões continuavam lotadas e eu já tinha sido informado por dois amigos que o filme, sim, inspirava-se nas graphic novels BATMAN – ANO UM, A PIADA MORTAL e no próprio CAVALEIRO DAS TREVAS.


Cena retirada de A PIADA MORTAL, de Moore e Bolland.


Com um custo de produção de U$ 180 milhões, em apenas 22 dias em cartaz o filme já arrecadou U$ 441 milhões, e alguns especialistas acreditam que a bilheteria pode dobrar até o fim deste mês. Apesar da bilheteria parecer uma coisa meio fútil a ser comentada em relação aos méritos infinitamente superiores do próprio filme, uma bilheteria excelente como essa garante mais poder e liberdade criativa ao diretor e aos atores principais numa provável sequência, o que é ótimo, considerando o salto qualitativo deste comparado a BATMAN BEGINS.

A trama do filme parece simples (Batman VS. Coringa), mas o excelente e complexo roteiro de David S.Goyer, Jonathan e Christopher Nolan consegue, em 2 horas e meia de filme, introduzir e se aprofundar em diversos personagens, situações e reviravoltas inesperadas de uma forma que você nunca sabe se o filme vai acabar ali mesmo ou se vai continuar. Em uma atitude corajosa, os roteiristas e o diretor Christopher Nolan decidiram que neste BATMAN, ao estilo de STAR – WARS - O IMPÉRIO CONTRA-ATACA, eles deveriam mostrar as coisas piorando, antes de melhorarem. Dessa forma, temos um filme bem mais sombrio e trágico do que o anterior, o que ajuda a recolocar BATMAN não como um super-herói, mas como um anti-herói mais obcecado em seu próprio senso de justiça do que com qualquer outra coisa.


Nolan, de terno preto, observa o ensaio de Bale para uma das cenas mais complexas do filme.


Nessa batida, o filme segue a linha psicológica de A PIADA MORTAL, de Alan Moore e Brian Bolland, que (re)conta a origem do Coringa e sua eterna luta contra Batman, desta vez, envolvendo o Comissário Gordon e sua filha Bárbara. Na graphic novel, o Coringa tenta enlouquecer Gordon usando argumentos que inspiraram os diálogos criados para o Coringa de Heath Ledger. No filme, o Coringa está sempre pregando as vantagens da Loucura contra a Sanidade, o Caos contra a Ordem e em alguns pontos ele às vezes parece ter razão, mas como aqui trata-se de um filme feito para as massas, mesmo que o vilão esteja certo em alguns pontos, o herói, no papel de autoridade instituída, está ali para dizer o contrário. Uma prova disso é um dos momentos mais emocionantes do filme, mas que também transmite uma mensagem política e falsa. Me refiro a cena dos barcos com explosivos, onde o Coringa oferece as duas tripulações a opção de explodirem uma antes da outra antes que ele mesmo aperte o botão e exploda as duas. Um barco contém 500 criminosos e alguns poucos policias enquanto o outro contém 500 civis inocentes. O senso comum diria que o barco com criminosos deveria ser sacrificado, poupando as centenas de homens, mulheres e crianças do outro barco, mas o que se vê no filme é uma discussão dos dois lados, onde finalmente um nobre criminoso decide que eles devem ser os sacrificados ao jogar o detonador na água. 


 O Coringa de Ledger é o vilão mais perturbador de todos os tempos, tal a qualidade e quantidade de nuances que o ator conseguiu imprimir ao personagem.


Sem saber disso, ainda assim, homens e mulheres no outro barco decidem generosamente também se auto-sacrificar para não matar os outros 500 criminosos. Vitória da humanidade e do homem civilizado?! Ou uma cretina mensagem política?! Eu fico com a mensagem política cretina. Porque eu até acredito que uma pessoa sacrifique sua vida por um desconhecido, mas não acredito que centenas de pessoas decidam de uma só vez que vale a pena deixar morrer seus maridos, esposas e filhos para não sacrificar um bando de criminosos. Eu não sacrificaria minha mulher, assim como acredito que (quase) nenhum espectador do filme sacrificaria seus entes queridos numa situação-limite dessas. A mensagem política: ora, o Coringa é um terrorista que está explodindo a cidade (leia-se Al-Qaeda) e os civilizados e nobres civis no barco recusam-se a compactuar com seus objetivos malucos (leia-se governo americano). Assim, você tem a Al-Qaeda explodindo e matando pessoas ao redor do mundo e os Estados Unidos lutando contra eles (Batman e a polícia de Gotham). Até aí não seria nada demais, quase todo filme americano ultimamente contém essa mensagem, mas a mais importante aqui é mostrar que americanos não matam civis “inocentes”, mesmo estes sendo criminosos. Essa mentira deve ser extremamente propagandeada ao grosso da sociedade americana, que ignora ou finge que não sabe ler, quando se sabe que os ataques americanos ao Afeganistão e Iraque já mataram 10 vezes mais civis inocentes do que os que morreram no atentado ao World Trade Center. Mas o nome dado a isso por lá é “efeito colateral”. É a novilíngua de Orwell em ação.


 Reconhecido pela Academia, Ledger foi um dos raros atores a receber um Oscar póstumo.


Mas fora essa derrapada cretina do filme, o resto todo é uma maravilha, com direito até a cenas estilo MISSÃO:IMPOSSÍVEL, com Batman agindo em Hong Kong. o Coringa é um show a parte, com Ledger entregando-nos sua derradeira e melhor performance que certamente será extremamente difícil de ser nivelada. O Coringa de Jack Nicholson nunca foi um grande desafio mesmo. Minha sugestão, que Nolan não vai ler mesmo, é que se o Coringa voltar, que chamem Viggo Mortensen. Willem Dafoe era minha opção na época do BATMAN de Tim Burton, mas hoje ele só serve se for fazer o Coringa velho do O CAVALEIRO DAS TREVAS original. Christian Bale melhorou um pouco sua performance em comparação com o filme anterior, até mesmo por conta do roteiro e o único problema continua sendo a voz gutural e carregada de raiva de seu Batman, que só funciona quando ele diz frases curtas.

Mas o verdadeiro arquiteto do caos responsável por colocar BATMAN – O CAVALEIRO DA TREVAS entre as 5 melhores adaptações de quadrinhos de todos os tempos (segundo este que vos escreve) é o diretor e roteirista Christopher Nolan (AMNÉSIA, INSÔNIA) que imprime em todo o filme um senso de decadência moral e tragédia que raramente se vê num blockbuster. Nada mau para um diretor que está apenas em seu 6° longa-metragem.
 



4 comentários:

Mundo Cólica disse...

nunca fui fã de Batman(mah),sempre achei ele meio afetado(já disse isso antes?),mas fui assiti esta estreia por causa do Ledger(e quem não foi,não é mesmo?).simplismente adooorei.gostei tanto que no outro dia assisti BATMAN BEGINS.realmente,depois de assiti o antecessor,nada se compara o atual.essa coisa sombria,meio filosofica do Coringa,um maximo.adooorei o Ledger com seus maneirismos,coisa muuiiito comum na parte do teatro e que ele soube transpor pro cinema de maneira espetacular(ai,falando assim bate ate saudade).concordo com a parte que você falou que da a ideia de que o filme naõ termina,simplismente ele soube explorar as diversas facetas da historia,que acaba parecendo muiitos filmes em um só.agora vale bater palmas tambem para a divulgaçaõ.os posters estão divinos!!*__*
continuo naõ tendo batman como um super-heroi legal,mas ele ganha creditos aos poucos.hahahahaha

MADE IN LIBERDADE disse...

o Curinga dá muito medo com essa cara aí... Vou agora ver o horário da sessão!!!!

Isabella Quaranta disse...

Tipo, eu sempre amei Batman. Eu até li o gibi original de 1984 (acho que é isso) que deu origem ao filme. Minha mãe tinha. Logo uma coisa eu posso garantir, esse foi o melhor filme do Batman em todos os tempos. Pela primeira vez o Curinga dos filmes está retratado da mesma forma que nos gibis. O desejo de detruir o Batman, porém sem matá-lo está nitidamente esposto! Porque se o Curinga matar o Batman, com quem ele lutara! Tem no filme uns lances que só entende quem le gibi, tipo quando ele sita o Asilo Arkhan (não me lembro se é assim que se escreve), que é uma prisão onde vão todos os loucos perigosos de Gothan City. Tem umas piadas do curinga que eu quando fui ver (assisti na estréia) morria de rir, e meus amigos não entendiam.
Particularmente foi um dos melhores filme que eu vi durante todo o ano! Como o Mundo da Cólica disse, Os posters estão divinos! O meu favorito é o que o Curinga está de costas andando pela rua deserta.

Se todos os filmes que fossem baseados em gibi fossem assim, melhoraria muito a qualidade do cinema! Bjão

Alex Barros disse...

A principal referencia para este filme foi a HQ O Longo dia das Bruxas de Joseph Loeb e Tim Sale.