sábado, 28 de novembro de 2015

FLÁVIO GIKOVATE - Entrevista


 
Não precisa casar. Sozinho é melhor.
 

O psiquiatra decreta a morte do amor romântico e diz que a vida de solteiro é um caminho viável para a felicidade.

"Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver de escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo."



Com 41 anos de clínica, o médico psiquiatra Flávio Gikovate acompanhou os
fatos mais marcantes que mudaram a sexualidade no Brasil e no mundo. Por
meio de mais de 8.000 pessoas atendidas, assistiu ao impacto da chegada da
pílula anticoncepcional na década de 60 e a constituição das famílias
contemporâneas, que agregam pessoas vindas de casamentos do passado. Suas
reflexões sobre o amor ao longo de esse tempo foram condensadas no seu 26º
livro, Uma História de Amor... com Final Feliz. Na obra, a oitava sobre o
tema, Gikovate ataca o amor romântico e defende o individualismo, entendido
não como descaso pelos outros e sim como uma maneira de aumentar o
conhecimento de si próprio. Tendo sido um dos primeiros a publicar um estudo
no país sobre sexualidade, atuou em diversos meios de comunicação, como
jornais e revistas e na televisão. Atualmente, possui um programa na rádio,
em que responde perguntas feitas por ouvintes. Aos 65 anos, ele atendeu a
reportagem de Veja em seu consultório no elegante bairro dos Jardins, em São
Paulo.

"Os solteiros que estão mal são os que ainda sonham com o amor romântico.
Pensam que precisam de outra pessoa para se completar. Como Vinicius de
Moraes, acham que que 'é impossível ser feliz sozinho'. Isso caducou. Daí,
vivem tristes e deprimidos."





Veja - O senhor diria para a maioria das pessoas que o casamento pode não
ser uma boa decisão na vida?
Gikovate - Sim. As pessoas que estão casadas e são felizes são uma minoria.
Com base nos atendimentos que faço e nas pessoas que conheço, não passam de
5%. A imensa maioria é a dos mal casados. São indivíduos que se envolveram
em uma trama nada evolutiva e pouco saudável. Vivem relacionamentos
possessivos em que não há confiança recíproca nem sinceridade. Por algum
tempo depois do casamento, consideram-se felizes e bem casados porque ganham
filhos e se estabelecem profissionalmente. Porém, lá entre sete e dez anos
de casamento, eles terão de se deparar com a realidade e tomar uma decisão
drástica, que normalmente é a separação.

Veja - Ficar sozinho é melhor, então?
Gikovate - Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena e sem
conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, aquele "vazio no
estômago" por estarem sozinhos, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se
ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um
pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que
mais gostam. Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda
sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa
precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que "é
impossível ser feliz sozinho". Isso caducou. Daí, vivem tristes e
deprimidos.

Veja - Por que os casamentos acabam não dando certo?
Gikovate - Quase todos os casamentos hoje são assim: um é mais extrovertido,
estourado, de gênio forte. É vaidoso e precisa sempre de elogios. O outro é
mais discreto, mais manso, mais tolerante. Faz tudo para agradar o primeiro.
Todo mundo conhece pelo menos meia-dúzia de casais assim, entre um egoísta e
um generoso. O primeiro reclama muito e, assim, recebe muito mais do que dá.
O segundo tem baixa auto-estima e está sempre disposto a servir o outro.
Muitos homens egoístas fazem questão que a mulher generosa esteja do lado
dele enquanto ele assiste na televisão os seus programas preferidos.
Mulheres egoístas não aceitam que seus esposos joguem futebol. Consideram
isso uma traição. De um jeito ou de outro, o generoso sempre precisa fazer
concessões para agradar o egoísta, ou não brigar com ele. Em nome do amor,
deixam sua individualidade em segundo plano. E a felicidade vai junto. O
casamento, então, começa a desmoronar. Para os meus pacientes, eu sempre
digo: se você tiver de escolher entre amor e individualidade, opte pelo
segundo.





Veja - Viver sozinho não seria uma postura muito individualista?
Gikovate - Não há nada de errado em ser individualista. Muitos dos autores
contemporâneos têm uma postura crítica em relação a isso. Confundem
individualismo com egoísmo ou descaso pelos outros. São conceitos
diferentes. Outros dizem que o individualismo é liberal e até mesmo de
direita. Eu não penso assim. O individualismo corresponde a um crescimento
emocional. Quando a pessoa se reconhece como uma unidade, e não como uma
metade desamparada, consegue estabelecer relações afetivas de boa qualidade.
Por tabela, também poderá construir uma sociedade mais justa. Conhecem
melhor a si próprio e, por isso, sabem das necessidades e desejos dos
outros. O individualismo acabará por gerar frutos muito interessantes e
positivos no futuro. Criará condições para um avanço moral significativo.

"As colunas e programas de rádio que eu faço não me trazem clientes. Às
vezes, só atrapalham. Em 1982, aceitei trabalhar com o Corinthians. Era a
democracia corinthiana. Foi um balde de água fria na clínica."

Veja - Por que os casamentos normalmente ocorrem entre egoístas e generosos?
Gikovate - A idéia geral na nossa sociedade é a de que os opostos se atraem.
E isso acontece por vários motivos. Na juventude, não gostamos muito do
nosso modo de ser e admiramos quem é diferente de nós. Assim, egoístas e
generosos acabam se envolvendo. O egoísta, por ser exibicionista, também
atrai o generoso, que vê no outro qualidades que ele não possui. Por fim,
nossos pais e avós são geralmente uniões desse tipo, e nós acabamos
repetindo o erro deles.

Veja - Para quem tem filhos não é melhor estar em um casamento? E, para os
filhos, não é melhor ter pais casados?
Gikovate - Para quem pretende construir projetos em comum – e ter filhos é o
mais relevantes deles – o melhor é jogar em dupla. Crianças dão muito
trabalho e preocupação. É muito mais fácil, então, quando essa tarefa é
compartilhada. Do ponto de vista da criança, o mais provável é que elas se
sintam mais amparadas quando crescem segundo os padrões culturais que
dominam no seu meio-ambiente. Se elas são criadas pelo padrasto, vivem com
os filhos de outros casamentos da mãe, mas estudam em uma escola de valores
fortemente conservadores e religiosos, poderão sentir algum mal-estar. Do
ponto de vista emocional, não creio que se possa fazer um julgamento
definitivo sobre as vantagens da família tradicional sobre as constituídas
por casais gays ou por um pai ou mãe solteiros. Estamos em um processo de
transição no qual ainda não estão constituídos novos valores morais. É
sempre bom esperar um pouco para não fazer avaliações precipitadas.






Veja - Que conselhos você daria para um jovem que acaba de começar na vida
amorosa?
Gikovate - É preciso que o jovem entenda que o amor romântico, apesar de
aparecer o tempo todo nos filmes, romances e novelas, está com os dias
contados. Esse amor, que nasceu no século XIX com a revolução industrial,
tem um caráter muito possessivo. Segundo esse ideal, duas pessoas que se
amam devem estar juntas em todos os seus momentos livres, o que é uma
afronta à individualidade. O mundo mudou muito desde então. É só olhar como
vivem as viúvas. Estão todas felizes da vida. Contudo, como muitos jovens
ainda sonham com esse amor romântico, casam-se, separam-se e casam-se de
novo, várias vezes, até aprender essa lição. Se é que aprendem. Se um jovem
já tem a noção de não precisa se casar par ser feliz, ele pulará todas essas
etapas que provocam sofrimento.

Veja - As mulheres são mais ansiosas em casar do que os homens? Por quê?
Gikovate - As mulheres têm obsessão por casamento. É uma visão totalmente
antiquada, que os homens não possuem. Uma vez, quando eu ainda escrevia para
a revista Cláudia, o pessoal da redação fez uma pesquisa sobre os desejos
das pessoas. O maior sonho de 100% das moças de 18 a 20 anos de idade era se
casar e ter filho. Entre os homens, quase nenhum respondeu isso. Queriam ser
bons profissionais, fazer grandes viagens. Essa diferença abismal acontece
por razões derivadas da tradição cultural. No passado, o casamento era do
máximo interesse das mulheres porque só assim poderiam ter uma vida sexual
socialmente aceitável. Poderiam ter filhos e um homem que as protegeria e
pagaria as contas. Os homens, por sua vez, entendiam apenas que algum dia
eles seriam obrigados a fazer isso. Nos dias que correm, as razões que
levavam mulheres a ter necessidade de casar não se sustentam. Nas
universidades, o número de moças é superior ao de rapazes. Em poucas
décadas, elas ganharão mais que eles. Resta acompanhar o que irá acontecer
com as mulheres, agora livres sexualmente, nem sempre tão interessadas em
ter filhos e independentes economicamente.

Veja - Como será o amor do futuro?
Gikovate - Os relacionamentos que não respeitam a individualidade estão
condenados a desaparecer. Isso de certa forma já ocorre naturalmente. No
Brasil, o número de divórcios já é maior que o de casamentos no ano.
Atualmente, muitos homens e mulheres já consideram que ficarão sozinhos para
sempre ou já aceitam a idéia de aguardar até o momento em que encontrarão
alguém parecido tanto no caráter quanto nos interesses pessoais. Se isso
ocorrer, terão prazer em estar juntos em um número grande de situações.
Nesse novo cenário, em que há afinidade e respeito pelas diferenças, a
individualidade é preservada. Eu estou no meu segundo casamento. Minha
mulher gosta de ópera. Quando ela quer ir, vai sozinha. E não há qualquer
problema nisso.

Veja - Quando duas pessoas decidem morar juntas, a individualidade não sofre
um abalo?
Gikovate - Não necessariamente elas precisarão morar juntas. Em um dos meus
programas de rádio, um casal me perguntou se estavam sendo ousados demais em
se casar e continuarem morando separados. Isso está ficando cada dia mais
comum. Há outros tantos casais que moram juntos, mas em quartos separados.
Se o objetivo é preservar a individualidade, não há razão para vergonha. O
interessante é a qualidade do vínculo que existirá entre duas pessoas. No
primeiro mundo, esse comportamento já é normal. Muitos casais moram até em
cidades diferentes.




Veja - É possível ser fiel morando em casas ou cidades diferentes?
Gikovate - A fidelidade ocorre espontaneamente quando se estabelece um
vínculo de qualidade. Em um clima assim, o elemento erótico perde um pouco
seu impacto. Por incrível que pareça, essas relações são monogâmicas. É algo
difícil de explicar, mas que acontece.

Veja - Com o fim do amor romântico, como fica o sexo?
Gikovate - Um dos grandes problemas ligados à questão sentimental é
justamente o de que o desejo sexual nem sempre acompanha a intimidade
efetiva, aquela baseada em afinidade e companheirismo. É incrível como de
vez em quando amor e sexo combinam, mas isso não ocorre com facilidade. Por
outro lado, o sexo com um parceiro desconhecido, ou quase isso, é quase
sempre muito pouco interessante. Quando acaba, as pessoas sentem um grande
vazio. Não é algo que eu recomendaria. Hoje, as normas de comportamento são
ditadas pela indústria pornográfica e se parece com um exercício físico. O
sexo então tem mais compromisso com agressividade do que com amor e amizade.
Jovens que têm amigos muito chegados e queridos dizem que transar com eles
não tem nada a ver. Acham mais fácil transar com inimigos do que com o
melhor amigo. Penso que, com o amadurecimento emocional, as pessoas tenderão
a se abster desse tipo de prática.

"As razões que levavam as mulheres a ter necessidade de casar não se
sustentam mais. Nas universidades, o número de moças é superior ao de
rapazes. Em poucas décadas elas ganharão mais
que eles."

Veja - As desilusões com o primeiro casamento têm ajudado as pessoas a tomar
as decisões corretas?
Gikovate - No início da epidemia de divórcios brasileira, na década de 70,
as pessoas se separavam e atribuíam o desastre da união a problemas
genéricos. Alguns diziam que o amor acabou. Outros, o parceiro era muito
chato. Não se davam conta de que as questões eram mais complexas. Então,
acabavam se unindo à outras pessoas muito parecidas com as que tinham
acabado de descartar. Hoje, os indivíduos estão mais críticos. Aceitam ficar
mais tempo sozinhos e fazem autocríticas mais consistentes. Por causa disso,
conseguem evoluir emocionalmente e percebem que terão que mudar radicalmente
os critérios de escolha do parceiro. Se antes queriam alguém diferente, hoje
a tendência é buscarem uma pessoa com afinidades.

Veja - O senhor já escreveu colunas para jornais, revistas, atuou na
televisão e agora tem um programa na rádio. O senhor se considera um
marqueteiro?
Gikovate - Sempre gostei de trabalhar com os meios de comunicação.
Psicologia não é assunto para especialistas, mas de todo mundo. Faço essas
coisas também porque é uma forma de entrar em contato com um público
diferente do que eu encontro normalmente. Na rádio, respondo perguntas de
gente tacanha, que jamais teriam condição de pagar uma consulta. Estão em um
outro patamar financeiro. Mas o que dizem, é ouro puro. As colunas e
programas de rádio que eu faço não me trazem clientes. Às vezes, só
atrapalham. Em 1982, aceitei trabalhar com o Corinthians. Era a democracia
corinthiana. Foi um balde de água fria na clínica. Imagine só, o
Corinthians! Não foi o tipo de notícia que meus pacientes gostaram de ouvir.
Eu fiquei lá dois anos. Meu pai ficava chocado com essas coisas, porque
naquele tempo médico de bom nível não fazia essas coisas. Não estava nem aí.
Quando eu me interesso por alguma coisa, eu vou. No mais, se eu fosse um
simples marqueteiro, não teria durado 41 anos.

Veja - Apesar de todo esse tempo de clínica, o senhor atuou sozinho, longe
das universidades. Por quê?
Gikovate - O mundo acadêmico está cheio de papagaios, que repetem fórmulas
prontas. Citam sempre outros pensadores, mas nunca vão a lugar algum. Não
têm coragem para disso. Esse universo, do qual eu acabei me afastando, é
extremamente conservador. Não são eles que produzem as novas idéias. Muitos
fingem que eu não existo. Diziam à pequena que eu era um cara muito
pragmático, que levava em conta muito os resultados, o que é verdade. Os que
mais gostam do que eu faço não são da minha área. São os filósofos, como o
Renato Janine Ribeiro e a Olgária Matos. De minha parte, eu sempre fugi dos
rótulos. Não me inscrevi membro da Sociedade de Psicanálise. Não sou membro
de qualquer sociedade dogmática. Não sou sócio de nenhum clube. Sou uma
pessoa de mente aberta. Nunca quis discípulos. Os meus discípulos, se um dia
existirem, pensarão por conta própria. Se tiverem um monte de opiniões
diferentes das minhas, seria ótimo.



Entrevista concedida à revista VEJA.

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