domingo, 16 de janeiro de 2011

MEMNOCH - crítica

Capa da edição nacional.


Sinopse

O vampiro Lestat é perseguido por um demônio, que acaba revelando-se nada menos do que Lúcifer (sob o nome de Memnoch) em pessoa, que pede a ele que se junte em sua batalha contra Deus.

A autora

Anne Rice nasceu em uma família católica irlandesa e foi educada de acordo até que rompeu com a Igreja e se tornou ateísta. Muitos anos depois, voltou a ser católica apostólica romana e devido a inúmeros atritos ideológicos e humanistas (direitos dos homossexuais, movimentos pró-escolha, etc), recentemente rompeu com a Igreja, passando a acreditar apenas em sua visão pessoal do Cristo. Em 1976 publicou ENTREVISTA COM O VAMPIRO, que só teria uma continuação em 1985, com o lançamento de O VAMPIRO LESTAT, livro que acabou ressuscitando mais uma vampiromania entre aficcionados pelo tema no mundo inteiro. A partir daí, escreveu mais 8 livros dentro da coleção CRÔNICAS VAMPIRESCAS e mais 2 na coleção NOVOS CONTOS DE VAMPIROS, totalizando 12 livros abrangendo as aventuras de Louis, Lestat e diversos outros vampiros que interagem com os dois primeiros. Lestat acabou se tornando o mais famoso deles entre os leitores e ele é o narrador/protagonista de 5 volumes e o coadjuvante principal em ENTREVISTA COM O VAMPIRO.


Anne Rice costuma usar modelitos góticos...

O livro

Depois de quase ser morto por Louis e Claudia, provocar a ira da comunidade dos vampiros por revelar sua existência à humanidade através de livros como esse, enfrentar Akasha, a primeira e mais antiga vampira e ser obrigado a viver em um corpo mortal nos quatro livros precedentes, Lestat finalmente encara a maior aventura de sua vida: o próprio demônio.

Mas o demônio, que aqui prefere não ser chamado de Satã ou Lúcifer, mas sim Memnoch, não está atrás de Lestat pelos seus pecados como vampiro, mas sim por querer que ele o ajude em sua batalha contra Deus. Seus motivos? Bem, Lestat é o vampiro mais poderoso da Terra, como também é o mais curioso, inconseqüente e amoral de todos. Talvez por isso Memnoch o tenta com uma viagem ao Paraíso, ao Inferno e ao passado remoto para que ele possa conhecer seu ponto de vista e decidir se ele quer ou não ser seu braço direito.


Capa da edição americana.
Na época de sua publicação, 1995, este seria o último livro de Lestat, mas ele acabaria voltando 8 anos depois em CÂNTICO DE SANGUE (2003).

Para quem leu os volumes anteriores da saga de Lestat e Louis, fica explícito o interesse da autora em confrontar seus vampiros com a religião. Afinal, antes de serem vampiros, eles eram mortais cristãos que acreditavam em Deus acima de todas as coisas (estamos falando de homens dos séculos XVII e XVIII) e que subitamente, se vêem transformados em monstros sedentos de sangue.

Esse confronto entre ser um “demônio” e ter fé em Deus, em O VAMPIRO LESTAT, faz com que os vampiros de Paris do se´culo XVII vivam em meio aos esgotos, já que se sentem como as criaturas mais vis e baixas dentro da sua fé cristã. É Lestat que chega aos imundos vampiros parisienses elegantemente vestido e lhes diz que não há Deus nem força divina alguma para castigá-los, já que ele sempre viveu do bom e do melhor, matando pessoas tanto por pura lascívia quanto por sede.

E assim, o universo dos personagens de vivem em um mundo, onde, obviamente, se existem vampiros, também existem seres sobrenaturais como espíritos, bruxas e outras criaturas. Entretanto, até este volume, nunca vampiro algum havia se deparado com Satã (Memnoch), supostamente o mestre de todas as criaturas sobrenaturais maléficas que vivem sob a Terra.


Em ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994) de Neil Jordan, Tom Cruise foi o cruel e debochado Lestat.
Anne Rice diz que sempre imaginou Robert Downey Jr. como Lestat.

Contrariando as expectativas cristãs de Lestat, Memnoch não veio reclamar sua alma ou algo do tipo. Veio sim, para pedir sua ajuda e quase todo o livro é ocupado pela sua narrativa onde ele demonstra que é o antagonista de Deus, mas nunca seu inimigo e muito menos o Mal.

Anne Rice opta por utilizar o significado original da palavra Satã para tecer a personalidade e ações de Memnoch, que siginificam tanto “acusador” quanto “adversário”. E é isso que Memnoch faz o tempo inteiro durante sua relação com seu Deus, que ignora os sofrimentos da humanidade e vê os humanos como iguais a quaisquer dos animais que habitam o mundo.

Memnoch, então, trava uma batalha quase perdida com um Deus teimoso em tentar fazê-lo perceber que os homens tem almas que podem ser equiparadas às dos anjos e merecem seu lugar no Paraíso ao invés de permanecerem em um limbo que contém várias camadas espirituais, onde habitam desde os espíritos mais pérfidos e ignorantes aos mais sábios e bondosos.

Anne Rice já foi católica, ateísta, católica novamente e agora, rompida com a Igreja, diz apenas acreditar em Cristo. Bem, suas crenças transparecem explicitamente nesse livro, junto com a personagem feminina principal, Dora, uma pregadora religiosa independente cheia de fé e que tem a habilidade de ver seres sobrenaturais.


Em A RAINHA DOS CONDENADOS (2002) de Michael Rymer, Lestat é vivido pelo mediano Stuart Townsend. O filme, fraco, adapta sem sucesso os volumes O VAMPIRO LESTAT e A RAINHA DOS CONDENADOS.
Cerca de 1.000 páginas em um filme de 101 minutos.

Lestat, junto com Memnoch, atravessará várias épocas citadas na Bíblia e inclusive encontrará duas vezes com Cristo (Deus encarnado). Agora, o que Lestat faz quando encontra com um Jesus ensanguentado carregando sua cruz, vou deixar em suspenso... Mas esse encontro terá consequências importantes no futuro religioso da humanidade.

Para quem conhece e acredita na teologia judaico-cristã, MEMNOCH é um deleite narrativo que certamente vai fortalecer sua fé, mesmo com tanta ficção ao seu redor. Já para que se interessa por religião e religiosidade, MEMNOCH é um livro divertido e instigante em seus conceitos, embora, como sempre aconteça em narrativas que tentam vender Deus e o Diabo como seres reais, ela falha miseravelmente quando tenta explicar o universo, já que no trecho em que Memnoch fala da criação de todo o universo e diz ter visto todos os planetas e estrelas serem criados, ele cita apenas a Terra como o único mundo que viu ser habitado, mesmo tendo passados bilhões de anos pelo universo antes de ver a vida surgir em nosso planeta. Ignorar propositalmente certas teorias científicas amplamente aceitas enquanto abraça outras só para não “melar” sua narrativa judaico-cristã-vampiresca é uma atitude um tanto malandra da autora e ela não precisava fazer isso.

No final, ambíguo, cabe ao leitor decidir quem venceu: Lestat, Memnoch ou Deus?

Trecho

Memnoch narra a Lestat de quando foi expulso do Paraíso:

— "Estou sendo brando com você", disse Ele.
— "É, estais mesmo, mas estais errado; e também nisso estais equivocado, pois preferis ouvir os hinos em Vosso louvor repetidos infinitamente para sempre. E Senhor, essas almas poderiam vir a Vós e cantar esses hinos. "
— "Eu não preciso dos hinos, Memnoch", disse Ele.
— "Então, por que cantamos?"
— "Você, de todos os meus anjos, é o único que me acusa! Que não confia em mim. Ora, essas almas que você trouxe do Sheol confiam em mim de uma forma que você não confia! Foi esse o critério que você usou para selecioná-las! O fato de elas confiarem na Sabedoria de Deus. "
— Não pude me calar.
— "Aprendi algo quando era de carne e osso, Senhor, algo que sustentou tudo o que eu havia suspeitado antes e que confirma tudo o que vi desde então. O que posso fazer, Senhor? Contar-Vos mentiras? Pronunciar com minha língua falsidades descaradas? Senhor, na humanidade, criastes algo que nem Vós compreendeis plenamente! Não pode haver outra explicação, pois, se houver, não existe Natureza e não existe nenhuma Lei. "
— "Desapareça da minha presença, Memnoch. Desça à Terra, afaste-se de mim e não se intrometa com Nada, está me entendendo?"
— "Ponde à prova o que eu disse, Senhor. Tornai-Vos de carne e osso como eu. Vós podeis fazer qualquer coisa, envolvei-Vos em carne... "
— "Silêncio, Memnoch. "
— "Ou se não ousardes fazer isso, se for indigno que o Criador compreenda sua Criação em cada célula, então fazei com que se calem os hinos dos Anjos e dos Homens! Calai-os, já que afirmais não precisar deles. E então observai o que Vossa Criação significa para Vós!"
— "Eu o expulso, Memnoch!", proclamou Ele, e num instante todo o Paraíso ressurgiu à minha volta, todo o bene ha elohim e com ele os milhões de almas salvas. E Miguel e Rafael estavam parados diante de mim, olhando com horror enquanto eu era empurrado para trás, para fora dos portões e para dentro do turbilhão.
— "Sois impiedoso com Vossas Criações, meu Senhor!", vociferei tão alto
quanto pude para me fazer ouvir em meio ao alarido dos cantos angustiados. "Aqueles homens e mulheres criados à Vossa própria imagem têm razão de desprezar-Vos, pois para nove décimos deles teria sido melhor não ter nascido nunca!"

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Usado.


Bônus

A RAINHA DOS CONDENADOS - Vídeo clip



A única coisa boa que resultou do do filme é esse clip do KORN, que não apela usando cenas do filme e cria sua narrativa própria usando Lestat como personagem do vídeo.

3 comentários:

Senta-laH disse...

Sou louca pra ler Entrevista com o Vampiro! E agora acabou que despertou a vontade de ler todos os livros "vampirescos" da Anne Rice! Sou apaixonada por vampiros, mas os vampiros "reais" e não esses que estão inventando por aí e que acabam se tornando descaracterizados da lenda original!

R. S. Pereira disse...

Juro, depois que li a Saga Twilight, me fechei pra qualquer outra história de Vampiro ou Lobisomens!
Ultimamente tenho lido, a série Os Immortais (Alyson Noel), e aqueles livros Fallen e Torment (Lauren Kate).... Mas mesmo assim, gosto de ver a visão vampiresca de outros autores! Mais twilight, é pra mim, o melhor!

Gostei desse Post...
Pode me seguir no meu blog, tbm é do Blogger!!!
E muito obrigado por me responder via E-mail viu!!!!

http://zaakarcom.blogspot.com

Abraços!!!

Tatiane disse...

O vídeo Forsaken foi baseado no filme O Cabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene)de 1920, um clássico do terror. Achei perfeita a junção do conceito do personagem Lestat com o de Cesare, o personagem principal de dr. Caligari. Realmente foi a única coisa boa que restou porque o filme é uma adaptação muito ruim...