quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ZEITGEIST: MOVING FORWARD (2011, EUA) - Documentário


A famosa introdução do filme.


Bem, confesso que fui e ainda vou às lágrimas quando vejo Jacque Fresco dizendo essas palavras no final. Elas basicamente resumem minha indignação e meu horror diante de uma sociedade que poderia ser tão mais responsável e cuidadosa com os seus membros, mas que escolhe justamente o caminho inverso e brutaliza, emburrece, violenta e destrói corpos, mentes e almas.

O filme teve sua estréia mundial em 60 países, 315 salas e 30 línguas. Tudo com um custo mínimo, graças a um dedicada rede de milhares de voluntários. Em muitos lugares a exibição foi gratuita e as que não puderam ser, foi porque foram usadas salas de cinema, que claro, precisam fazer dinheiro.



A trilogia ZEITGEIST está entre os documentários mais vistos no mundo, graças ao fato de seu download ser liberado pelos autores, que percebem que a necessidade de passar informações adiante é muito mais valiosa do que a necessidade individual de obter lucros.
Esse terceiro filme da trilogia, somente no vídeo original do You Tube, já tem quase 14 milhões de acessos. Bem, parece que a mensagem está sendo passada. Mas que mensagem é essa? 

Bem, antes de mais nada recomendo assistir o documentário anterior: ZEITGEIST: ADDENDUM. O primeiro documentário, ZEITGEIST eu só recomendo para os mais curiosos, visto que ele fala muito mais de teorias da conspiração do que discute sobre o estado das coisas.


Mas em relação ao filme de quase 3 horas de duração, depois de um breve prólogo sobre como somos levados a acreditar na ambição e no consumo para sermos felizes na vida e na introdução de Fresco, o filme se divide em capítulos, sendo o primeiro:

Natureza Humana

Neste segmento, especialistas em genética, comportamento e psicólogos tentam explicar como o ser humano nasce com faculdades, comportamentos, ou doenças pré-determinadas mas o ambiente externo é que vai determinar o que vai emergir de cada um. É aquilo que já foi comprovado em pesquisas, se você leva uma vida estressada, é uma pessoa raivosa, triste ou guarda mágoas demais, seus sistema imunológico vai ter suas defesas prejudicadas e doenças comuns como uma gripe e até mesmo um câncer tem mais chances de surgirem. Da mesma forma uma criança abusada durante a infância tem muito mais chances de crescer para virar um adulto violento. A conclusão é que não somos bons ou maus (usando maniqueísmo apenas como ilustração), mas frutos do nosso ambiente. Claro, alguns de nós podemos ter mais inclinações para sermos mais egoístas ou altruístas, mas o ambiente, a forma como somos criados e as experiências pelas quais passamos é que vão determinar como seremos no fim das contas.



Clique para ampliar.

Dois exemplos que não são citados no filme sobre como o ambiente apode alterar radicalmente a postura mental e a vida das pessoas mas que gostaria de apontar aqui, são o filme TIROS EM COLUMBINE, de Michael Moore e a cultura Mosuo, na China. No filme de Moore, ele fala da indústria de armas e violência dos EUA e em como a mídia alimenta a paranóia do povo transmitindo ininterruptamente notícias de crimes, assassinatos e guerra. Apesar de ser a maior economia do mundo, os EUA tem uma violência de Terceiro Mundo. Para exemplificar isso, no filme, Moore visita duas cidades na fronteira entre EUA e Canadá. Do lado americano, muitas grades, todos com portas trancadas e o habitual número de crimes e assassinatos. Atravessando o rio para chegar ao Canadá, Moore se depara a maioria dos lugares e casa sem grades, portas destrancadas e uma baixa estatística de crimes e assassinatos. Uma vida melhor e quase sem violência a meros dois quilômetros de distância. O que explica isso senão uma cultura permeada de medo, desconfiança e violência?

Já a cultura Mosuo, um povo da China que vive numa localidade com 40.000 habitantes, é, até onde se sabe a única grande sociedade matriarcal existente. Nesse local, as mulheres mandam, os homens obedecem. E eles não são uma sociedade isolada. Elas são privilegiadas em relação ao estudo, ao trabalho e ao sexo. A revolução comunista tentou fazer com que essa sociedade se tornasse patriarcal e as mulheres subservientes, mas não deu certo e tanto homens quanto mulheres preferiram voltar ao sistema matriarcal, pois todos se sentem melhor com ele. Nesse sistema, não há crianças nem velhos abandonados e a família é o centro de tudo. Mas é uma família bem diferente das nossas. Para saber mais como é uma sociedade dominada por mulheres, clique aqui.   

As mulheres Mosuo nunca precisaram queimar sutiãs.

Novamente, o modo como mulheres e homens são criados em uma sociedade completamente distinta da nossa mostra como o ambiente nos faz diferentes. Para aqueles que acham que a mera genética que torna os homens fisicamente mais fortes é o que determina sua liderança “natural”.

A questão, como sempre, trata de sabermos quem realmente somos e como podemos ir contra nosso, como diz um dos especialistas, comportamento aberrante ditado pela sociedade e seus preconceitos.


Patologia Social

Voltando ao assunto abordado no segundo filme da trilogia, esse segmento discute as origens do mercado, de como os produtos criados pelo homem foram substituídos por dinheiro e de como o próprio dinheiro, a príncipio apenas um símbolo que representaria os seus bens reais, passou a ser um produto por si só e negociado entre nações e pessoas sem efetivamente produzir nada no processo.

Não é o assunto mais complexo do filme, sendo este a Natureza Humana, mas é o mais complicado de entender, pois a maioria de nós vê os detalhes da Economia, do Direito e da Política como mundos alienígenas anos-luz de nós. Entretanto, é essa Trindade, que nada tem de santa em nossos dias, que molda nossas vidas e nossos destinos.

Quase tudo o que fazemos é tem relação direta ou indiretamente pelo objetivo de obter dinheiro ou lucro financeiro.

 

Estudamos coisas que não são realmente necessárias nem verdadeiras para nós com o intuito de amealhar uma quantia suficiente para nos sentirmos seguros, para não acabarmos como aqueles pobres coitados que vemos na rua ou então por pura ganância, para termos cada vez mais bens, pelo prazer supérfluo de ter produtos que trazem pouco ou nenhum significado às nossas vidas.

Os economistas e ex-funcionários do governo americano que dão voz a este segmento também falam em como economias de países são prejudicadas em favor de outro e como se dá esse processo em determinados níveis.

Peter Joseph, o diretor e narrador intervém com questionamentos sobre a lógica de nosso sistema monetário e político e se pergunta se o objetivo de uma economia não deveria ser economizar recursos para que se tenha sempre... Mas o que se faz parece ser justamente o contrário. A economia faz tudo, menos economizar, já que procura produzir constantemente produtos que estragam logo (a famosa obsolescência programada) para que mais e mais sejam produzidos, esgotando cada vez mais rápido nossos recursos naturais e poluindo o meio ambiente.


De quem foi a ideia de que precisamos de mil modelos diferentes de celulares?

E porque (quase) todo mundo acha isso normal e não uma loucura?  

Ao final desse capítulo, volume de informações para o leigo é tão grande que eu sugiro que o espectador faça um esforço extra e anote tudo o que for de seu interesse para verificação mais tarde. Muitos críticos desse filme apontam verdades e inverdades caminhando juntos neste segmento e a melhor coisa a fazer nesse caso é contrapor informações para tentar chegar a uma conclusão mais próxima da realidade.
  
Projeto Terra



Nesse ponto, o filme tenta vir com uma solução radical e inovadora para a maior parte dos problemas que afligem o planeta e os seres humanos.

Alegando que sistemas políticos, econômicos e religiosos não tem a solução para as mazelas humanas e na verdade, as estão aumentando, Peter Joseph lança a idéia de uma Economia Baseada em Recursos (EBR). Baseada em métodos científicos e não mais nas ilusões corrompidas e corruptas de sistemas falidos, a EBR basearia a oferta no limite do que cada local pode oferecer a seus habitantes e toda abundância de determinado produto/alimento seria enviado para locais que não disporiam dele e vice-versa. Segundo o documentário, há recursos suficientes na Terra para que todos os 7 bilhões de pessoas vivam dignamente, usufruindo de educação, saúde, moradia e lazer. Bem, isso é um fato inegável, visto que matérias com essa conta matemática abundam pelos meios de comunicação. A recente capa da VEJA é um exemplo. Alguns anos atrás li que o dinheiro gasto em ração pra animais domésticos nos EUA em um único ano seria suficiente para levar saneamento básico para metade da África. Saneamento básico representando dezenas de milhares de pessoas que, anualmente, não morrerão por falta de água ou doenças advindas da falta de esgotos.





A seguir, Joseph apresenta o Projeto Vênus, uma cidade futurista criada e planejada por Jacque Fresco e seus colaboradores. Criador também da EBR, Fresco discorre sobre como uma sociedade sadia e não-agressiva perante a natureza se comportaria. As ideias e a filosofia de Fresco são tão envolventes quanto comoventes, mas é ingenuidade achar que isso acontecerá em breve ou mesmo nas próximas gerações.

Esse é um trabalho de formiguinha e assim como os primeiros cristãos levaram 400 anos para fazer o Império Romano abraçar a causa cristã, tempo similar deve levar para que uma mudança realmente radical e profunda aconteça na humanidade.   

Levante

Neste segmento final, Joseph e os especialistas convidados retomam algumas das idéias exploradas anteriormente e convidam o espectador a repensar sobre conceitos que tomamos por óbvios, mas que necessariamente não se aplicam a realidade, como por exemplo, achar que democracia e liberdade caminham juntos, quando a verdade não é essa. As atuais democracias, completamente reféns do mercado e de multinacionais, ditam leis que beneficiam bancos, financeiras, empreiteiras, grandes latifundiários e quando sobra um tempo, algo que beneficie o povo. Claro, temos muitos mais benefícios hoje do que tínhamos 100 anos atrás, mas até 100 anos atrás bancos e multinacionais não tinham o poder de comprar governos e botar por terra economias estrangeiras. Poder demais nas mãos de gente que só está interessada no lucro fácil e quase nunca preocupada com o bem estar humano ou ecológico. Lembremos o caso recente do derramamento de óleo da CHEVRON nas costas do Rio. Eles estavam tentando alcançar o leito de pré-sal clandestinamente! E a falta de ética deles não é uma exceção nesse mundo, ela é a regra.


Antes e depois das eleições.

A crise financeira dos EUA em 2008 prova que estamos chegando no limite e de acordo com especialistas, os governos e seus economistas vivem da ilusão de que é possível restaurar o crescimento e a “glória” do passado, quando nossos recursos energéticos atuais, água e outros recursos estão com seus dias contados.

E agora países da Europa começam a entrar em crise. As bolhas estão estourando e os governos e empresas continuam querendo mais produção e mais consumo quando a ordem deveria ser parar tudo e verificar outras vias. 

O filme conclui com cenas utópicas e ingênuas de protestos pacíficos ao redor do mundo onde todos sacam seu dinheiro do bancos e o despejam em frente aos bancos centrais de seus respectivos países, fazendo os donos do poder perceberem que o sistema deles faliu e que uma nova ordem mundial está surgindo.

Mas todo mundo sabe o que acontece quando governos e multinacionais se sentem ameaçados: ditaduras e censura sobre o fluxo de informações (como o recente fechamento do MEGAUPLOAD).
Em seguida o filme mostra um possível futuro onde todos tem acesso a educação, saúde, moradia, lazer e alta tecnologia.

Sonho comunista, anarquista ou apenas humanista?

O futuro dirá.


 Se o Estado tivesse interesse, as favelas seriam como a segunda opção desde sempre. 
Todos sabem que isso só está acontecendo por causa da Copa.


Conclusão

Documentários engajados que acabaram por fundar um movimento que já conta com mais de 3 milhões de membros ao redor do mundo, a trilogia ZEITGEIST, por mais falhas ou inverdades que contenha, serve para fazer o espectador repensar os valores de sua vida, de sua sociedade e até mesmo a questão definitiva: afinal, para que estamos aqui?

E qualquer filme ou obra de arte que faça uma pessoa refletir sobre essas questões merece ser visto e revisto.



O diretor Peter Joseph também liberou o filme completo para download. Você pode baixá-lo aqui.

Movimento Zeitgeist Brasil

Canal do Movimento Zeitgeist no You Tube.

Um comentário:

Carlos Mafort disse...

Meu amigo...se todos lesem essa postagem e tivesse atitude.. os protesto de nova friburgo não seriam a vergonha de público que tem sido. PARABÉM POR ESSA POSTAGEM... eu compartilhei no facebook com amigos!!