segunda-feira, 17 de março de 2008

10.000 A.C. - Crítica


Com certeza o pior filme do ano e um dos piores que já assisti em toda a minha vida.
Eu não esperava muito de um filme de Roland Emmerich, diretor de Independence Day, Godzilla, Stargate e O Dia Depois de Amanhã (essse, o único que despertava algum interesse na trama), e fui mais para ver a megafauna (mamíferos pré-históricos), mas confesso que nem de longe esperava um roteiro e uma direção tão capengas e tediosos.
Para começar, nem o roteirista nem o diretor parecem estar cientes das descobertas antropológicas e paleontológicas dos últimos 60 anos, sem falar de coisas muito mais básicas. Eles certamente, além de nunca lerem um livro sobre o assunto, também não assistem Discovery Channel.
Só pra enumerar alguns absurdos na ordem em que aparecem no filme:

1 – A tribo do protagonista é formada por raças diferentes e levando em consideração o resto do filme, eles vivem em algum lugar na África. Na África, berço da humanidade só haviam negros. Os negros se tornaram brancos na Europa e na tribo majoritariamente branca tem um mulato e uma asiática (a mãe anciã). Naquela época e até 100 anos atrás, uma pessoa de raça diferente dificilmente era aceita pela raça majoritária, ainda mais naqueles tempos. Sem falar que não poderia haver brancos por lá e muito menos asiáticos.

2 - Filosoficamente, a tribo possui conceitos como honra, honestidade, responsabilidade e amor romântico. Nada demais eles sentirem isso de alguma forma, o problema é eles saberem verbalizar a coisa numa forma que indica que eles já sabiam falar sobre aquilo que os gregos só pensariam 7.000 anos depois! E amor romântico é uma coisa que só aparece na sociedade moderna, antes disso, relação de casal era por questão de sobrevivência, conveniência, posse e instinto.

3 - Os homens e mulheres não pareciam sujos, apenas maquiados de sujos. Todos tinham dentes braquinhos e a mocinha sequer tinha as unhas sujas! Nessa época a maioria dos homens e das mulheres deveriam ostentar dentes podres e cicatrizes por todo o corpo. A expectativa de vida nessa época e nas condições que essa tribo vivia era de 40 anos.

4 – Caçada: Eles só tinham lanças pesadas, quando nessa época, muitas tribos do tipo já produziam lanças mais leves e que podiam ser atiradas a distância para caçar sem expor os caçadores a riscos desnecessários. No filme a tribo caça mamutes com a mesma técnica usada por índios norte-americnaos para caçar bisões. Funciona para bisões, que são animais que tem predadores como lobos e pumas, mas experimente usar essa técnica com elefantes africanos para ver o que acontece. Apenas filhotes e velhos doentes são passíveis de ataque. Um adulto saudável não tem predadores. Logo, eles até podem ter medo, mas eles não fogem de bicho algum. Leões fogem de elefantes. Um elefante sente teu cheiro e se acha que você é um predador parte pra cima e te pisoteia, chuta e te joga longe com a tromba se puder. E os caras se metem no meio de uma manada de mamutes e eles não só não sentem o cheiro deles como fogem todos e não fica um fillhote ou doente pra trás, que são naturalmente os que ficariam pra trás num estouro desses. E o que é aquela armadilha da rede, além de ser ridícula, é totalmente ineficaz.
Nossos ancestrais reais eram muito mais espertos do que o roteirista do filme e eles caçavam mamutes mais ou menos assim:
Identificavam ou procuravam um animal isolado do resto da manada, pois um mamute já seria mais do que suficiente pra dar cabo de todos, uma manada faria geléia deles. Escolhido o alvo, aproximavam-se com tochas e lanças (que todo animal tem medo de fogo) e procuravam distanciar o animal da manada e levá-lo em direção a um barranco pra ele cair e se quebrar todo e poderem realizar uma morte fácil sem feridos. Ou então cavavam um buraco de 2 ou 3 metros para o animal cair e aí também poder fazer uma morte com poucos riscos. E nunca ir atrás de um filhote, pois a mãe vêm atrás para defender. E então, eles eram ou não eram mais inteligentes que o roteirista deste filme?

5 - Geografia: eles vivem em montanhas quase glaciais e em questão de um dia ou dois estão numa floresta tropical e em questão de mais um dia ou dois, num deserto, sem locações geográficas intermediárias, como um floresta temperada ou uma savana. Dada a geografia da época, não havia montanhas daquele tipo na África. E se a floresta era tão perto, porque eles passavam mal no alto daqueles montanhas? Na floresta tem muito mais comida e ninguém passa frio. Se o filme fosse um pouquinho mais decente nesse sentido, eles levariam meses pra chegar ao destino final, o que só aumentaria a carga dramática, mas pra quê se dar ao trabalho?!

6 – Tigre Dentes-de-Sabre. No original é Dente de Lança, mas a tradução resolveu dar mais uma avacalhada, como se antigamente eles usassem a denominação moderna. O herói tem consciência ecológica, fica com pena dos animais e decide poupar a vida de um predador daqueles! Se fosse pra valer o cara tinha matado e comido o Tigre. E quando o Tigre fica “amiguinho dele”, só faltou aparecer o esquilinho da Era do Gelo, pois até mamute “camarada” apareceu no final.

7 – Armas, os antepassados dos egípcios usavam armas de metal. Não sei que metal eles usavam, mas só haveriam armas de metal uns 3.000 depois. Tudo bem que eles viessem da Atlântida ou de outro planeta, mas o fato deles deixarem metal a disposição no fim do filme deveria mudar a história da humanidade.

8 – Como as pirâmides também ficaram por ali, mais um furão. As primeiras pirâmides eram 10 x menores que aquelas e só começaram a ser construídas 5.000 anos depois.

De resto, muita bobagem, como o protagonista traumatizado com a perda do pai quando criança (drama típico de burguesinho norte-americano), uma feiticeira que ressuscita pessoas a distância, um narrador que explica tudo pros retardados que não entendem a “complexidade” da trama e todo tipo de clichê de filme de ação babaca.

E o pior de tudo, como sempre nos filmes desse diretor alemão que adotou os EUA como pátria, é a ideologia americana escancaradamente explícita no enredo onde uma tribo branca pacífica que convive com outras raças é atacada por gente que usa turbante, tem cara de árabe e mora no deserto!

Mais uma senhora cagada política e cinematográfica de Roland Emmerich.
Recomendável apenas para analfabetos funcionais e pessoas com QI abaixo de 80.

Um comentário:

Martin Juan Sarracena disse...

Não assisti o filme, porque só assisto raramente filmes que não são de FC.
Tinha até me interessado em assistir essa refilmagem do filme original dos anos 60 com aquela atriz bonita Rachel Welch.
Mas depois dessa critica, com esse ponto de vista, que eu mesmo costumo adotar, quando vejo filme de época, resolvi não assistir, a não ser se aparecer no corujão e eu estiver sem sono.
Eu até acrescentaria que naquela época não existiam aviões, e portanto, chineses, japoneses, vietnameses, tailandeses e amarelos em geral, não poderiam estar em Europa, nem África.
Quanto a negros, também fico Pucto quando os vejo na Inglaterra do século 11, num filme de Robin Hood, ou na corte do Rei Arthur.
Se fosse um filme de romanos, até passa, porque eles dominaram todo o mundo conhecido até o Sudão. Mas não a China.
Portanto, concordo com tudo.
Continuo assistindo filmes de FC, que são mais lógicos do que um chinês nas Cruzadas.
Parabéns pelo post.
Vida Longa e Próspera!